sexta-feira, 20 de maio de 2016

Somos espejos rotos...


Cambridge

Nueva Inglaterra y la mañana.
Doblo por Craigie.
Pienso (yo lo he pensado)
que el nombre Craigie es escocés
y que la palabra crag es de origen celta.
Pienso (ya lo he pensado)
que en este invierno están los antiguos inviernos
de quienes dejaron escrito
que el camino esta prefijado
y que ya somos del Amor o del Fuego.
La nieve y la mañana y los muros rojos
pueden ser formas de la dicha,
pero yo vengo de otras ciudades
donde los colores son pálidos
y en las que una mujer, al caer la tarde,
regará las plantas del patio.
Alzo los ojos y los pierdo en el ubicuo azul.
Más allá están los árboles de Longfellow
y el dormido río incesante.
Nadie en las calles, pero no es un domingo.
No es un lunes,
el día que nos depara la ilusión de empezar.
No es un martes,
el día que preside el planeta rojo.
No es un miércoles,
el día de aquel dios de los laberintos
que en el Norte fue Odin.
No es jueves,
el día que ya se resigna al domingo.
No es un viernes,
el día regido por la divinidad que en las selvas
entreteje los cuerpos de los amantes.
No es un sábado.
No está en el tiempo sucesivo
sino en los reinos espectrales de la memoria.
Como en los sueños
detrás de las altas puertas no hay nada,
ni siquiera el vacío.
Como en los sueños,
detrás del rostro que nos mira no hay nadie.
Anverso sin reverso,
moneda de una sola cara, las cosas.
Esas miserias son los bienes
que el precipitado tiempo nos deja.
Somos nuestra memoria,
somos ese quimérico museo de formas inconstantes,
ese montón de espejos rotos.
Jorge Luis Borges
Elogio de la sombra (1969)
Arte digital: Isaac Furtado

quarta-feira, 13 de abril de 2016

O nascimento da beleza

Vênus de Hohre Fels, a imagem feminina mais antiga.

A admiração pela beleza remonta aos primórdios da civilização. O diferencial entre os animais que procuravam seu parceiro entre os mais belos da espécie, e os homens, que além deste aspecto, buscavam a beleza através do adorno, encontra-se nos nossos primeiros rituais. A característica primordial da humanidade é tida, hoje, como o ato de sepultar os seus mortos. E a preparação para morte já existia muito antes das pirâmides do Egito, onde os primeiros sinais de sepultamento datam de mais de cem mil anos. Os restos mortais em todas as tumbas espalhadas pelo mundo são ricas fontes de pesquisa arqueológica, pois além dos ossos, muitos utensílios eram deixados com seus donos. A transformação do corpo em busca de adquirir mais beleza e status social, pode ser notada, por exemplo,  em um colar de conchas, encontrado há setenta e sete mil anos numa caverna em Blombos, na África do Sul. Hoje, os índios são representantes legítimos, e herdeiros desta tradição, com seus cocares, batoques, brincos, plumas e pinturas corporais.
Quando o homem tornou-se mais adaptado ao clima, diminuiu sua migração em busca de alimento, deixando assim de ser nômade. Ele passou a construir suas primeiras casas e povoados, com isto, veio o sentimento de posse. O patrimônio começou a existir através domínio das terras, e principalmente através da herança dos filhos, que iriam da continuidade a sua linhagem. O papel da mulher passou a ter mais importância, e os núcleos familiares foram se formando. A fertilidade da terra foi associada à procriação feminina, e, de alguma forma, este aspecto tinha que ser representado. 
A arte foi criada, não apenas para ser admirada, mas como uma maneira de contar as histórias das caçadas, dos rituais religiosos, ou aspectos sexuais. Tornando-se assim, uma porta para o mundo estranho e desconhecido, das poderosas forças da natureza.  O homem tinha que se proteger deste sobrenatural, e os seus rudimentares objetos cortantes (como facas e lanças) não eram suficientes. Desta forma, os amuletos de proteção foram criados. Alguns destes pequenos artefatos chegaram até nós, e os mais impressionantes são as esculturas de representação feminina. Todas procurando mostrar através da sua exuberância o aspecto reprodutivo, com as mamas bastante volumosas, os quadris largos, e em alguns casos desproporcionais. Onde a representação da face, das mãos e dos pés não eram bem definidos, ou até inexistentes. Estas esculturas foram denominadas de Vênus, em alusão à deusa grega relacionada ao poder se sedução feminino e da fertilidade.
Hoje, em torno de, trezentas Vênus estão espalhadas pelos principais museus de história natural do mundo. Uma das mais famosas é a Vênus de Willendorf, com cerca de vinte e três mil anos, feita de calcário e pintada inicialmente de vermelho. Esta Vênus, mesmo com os seus onze centímetros de tamanho, tem uma grandiosa força representativa. Sua cabeça toda trabalhada na forma de tranças, não mostra a face. Os seus braços, quase inexistentes, repousam sobre as mamas, que por vez, são muitos grandes, assim como o abdome e a vulva.
No entanto, a imagem feminina mais antiga é a Vênus de Hohle Fels (foto), esculpida há mais de 35 mil anos, em marfim de mamute, com apenas 6 centímetros de tamanho, encontrada na Alemanha. Outras estatuetas merecem ser citadas, como a Vênus de Brassempouy, Lespugue, Sireuil, Savignano, Grimaldi, Kostienki, de Dolni Vestonice, de Malta, D’Avdeevo, Cucuteni, La Dormeuse de Malte, e Laussel. Nomes desconhecidos que foram as primeiras musas da arte, testemunhas do nascimento da beleza. Padrão que mudou muito nos nossos cem mil anos de história, na eterna busca pela beleza.

Fonte: Livro 100.000 ans de Beauté, vol. 01 - Préhistoire/Fondations; Gallimard; 2009

quarta-feira, 30 de março de 2016

Reflexões & Ações


Existem momentos para agir e outros para refletir. Na cirurgia plástica observamos algumas intervenções intempestivas ou exageradas. Às vezes, o mais difícil é não operar. Dizer não para um paciente pode ser frustante, no entanto pode ser fundamental. A indicação da cirurgia não é apenas clínica, mas também psicológica.
Com 20 anos de atuação na cirurgia plástica, observamos padrões comportamentais em vários grupos. Como a adolescente que quer colocar uma prótese mamária ou fazer uma lipoaspiração; ou uma senhora que quer retomar seu casamento fazendo algumas cirurgias. Ou ainda, os pacientes ex-obesos que fizeram a cirurgia bariátrica e mudaram completamente seu estilo de vida. São padrões comportamentais distintos, e cabe ao cirurgião diagnosticar as alterações, e operar ou não. 
Diante, das distintas possibilidades nas diversas atuações da cirurgia plástica, optamos por intervenções mais discretas, menos invasivas e pontuais (sem muitas cirurgias associadas). Na face, estamos na terceira geração da Ritidoplastia, com cicatrizes bem menores e recuperação mais rápida. Nos pacientes ex-obesos, fizemos um planejamento de 4 regiões bem definidas. No contorno corporal, acrescentamos a Lipoescultura com enxertia na região Glútea.
Desta forma, fazemos o papel de cirurgião plástico, não de esteticista ou dermatologista. Encaminhamos sempre para os melhores Dermatologistas os nossos pacientes para manutenção dos tratamentos, e temos muitos retornos dos mesmos. 
Assim, refletindo para uma melhor conduta, e atuando com a cirurgia mais sensata, obtemos os melhores resultados. Refletindo e agindo!

Isaac Furtado 
CRM 5243 RQE 1429

quinta-feira, 3 de março de 2016

CHRONOS

CHRONOS


Dormindo sobre uma tumba sepulcral,
ele a todos controla. De braços cruzados
e respiração compassada, observa.

Apenas, observa …
Os dias agitados e as longas noites insones,
As horas atropeladas e os minutos perdidos.
A vida do rebento e os derradeiros suspiros.

Mexer com o tempo ainda nos falta.
Acordá-lo do seu eterno meditar.
Suplicar por mais alguns segundos.

E assim, tudo segue o seu curso.
O rio de Heráclito, o espaço de Einstein,
e as dimensões curvas de Hawking.
Todos desejam seus segredos.

Chronos, passa a mão na longa barba
de crespos fios brancos e amarelados,
onde se esconde uma boca voraz.

Encostado em pálida lápide,
ele descansa. A tempos suas asas
de arcanjo maior não crispam no céu.
Pois, inimigos não existem mais.

A nós, resta somente admirá-lo.
Tecer versos de sua silenciosa epopeia,
sermos seus súditos impermanentes.

Isaac Furtado 

Arte Digital de Isaac Furtado


terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Estética e Paixão


A dificuldade em lidar com dois conceitos de caráter tão pessoal, como a estética e a paixão, é que torna este assunto tão fascinante. A importância da estética na investigação filosófica é compartilhada com a ética e a lógica, que caminham mais nos trilhos da razão. A origem grega aisthesis significa “percepção através dos sentidos e/ou dos sentimentos”. Logo, a beleza não é apenas a imagem impressa na retina, mas, elaborada e fixada de forma prazerosa, apaixonante, no córtex cerebral. A complexidade de enquadramento dos padrões de beleza é que, talvez, tenha retardado a criação do conceito “estética”. Que, só foi utilizado em 1750, pelo filósofo Alexander Baumgarten, ao nomear a obra Aesthetica, abordando a disciplina que procurava sistematizar as diversidades da beleza de forma racional. Thomas Mann, no livro “Morte em Veneza” falava que das quatro virtudes (bondade, beleza, sabedoria e verdade), onde, a única que era percebida por meio dos sentidos, era a beleza.
        O assunto é universal, impossível de não ser comentado por qualquer ser humano, independente de sua cultura, classe social, ou instrução. Mesmo com o conceito: “beleza não se discute”, não ficamos apáticos (ausentes de paixão), e ao comentarmos sobre a beleza existe sempre uma primeira impressão processada em nossa mente, que automaticamente responde: é belo, ou é feio. Mas, baseado em que experiência nós emitimos este comentário de forma tão imediata? Que necessidade temos de nos embelezarmos com os ternos Armani, usados pelos homens de negócio de Wall street , ou trajando apenas um estranho batoque labial, usado pelos índios Caiapós? Com piercings, tatuagens, pinturas de guerra, cosméticos e cirurgias plásticas? Desde quando o Homo sapiens admira suas obras rupestres e o seu semelhante? Será que este sentimento nos remete mais remotamente? Três milhões e meio de anos atrás, aos olhos de Lucy, que aceitava seu parceiro pela estrutura forte, proporcional e bela, com o intuito de perpetuar sua espécie. Assim, como fazem as aves com suas plumas coloridas, os alces com seus enormes chifres simétricos, para impressionar suas fêmeas. E desta forma, desde que foi desenvolvida a reprodução sexuada para multiplicação das espécies, a beleza é imprescindível e ligada a boa saúde de qualquer animal ou vegetal? Mas quando a paixão foi adicionada a este sentimento de atração física na evolução do homem?
Nos dias de hoje, aquilo que vemos no nosso semelhante não é apenas a ação da evolução das espécies, mas da nossa espécie capaz de realizar um face-lift, paralisar rugas de uma senhora de meia-idade, ou apenas na capacidade de apreciar a beleza do sorriso de um bebê, ou a serenidade nos cabelos muito brancos de nossas avós. Esta beleza, que nos afeta de maneira apaixonante, é antropológica e divina, é cultural e genética, é moderna e imemorial. Na mitologia Grega, Paris, no julgamento daquela que seria eleita a mais bela, abnegou o poder e a sabedoria oferecidos pelas concorrentes, elegendo Afrodite, que lhe prometera a mulher mais bela, Helena. E assim, foi a origem mítica da primeira guerra, Troia.


Lucy. Trabalho em acrílica e colagem. 140/120cm. Isaac Furtado

Segundo Baudelaire, a beleza tem sempre dois elementos, o eterno invariável, e o elemento circunstancial relativo, variando com a idade, a moda, a moral e as emoções. E sempre nos remetemos ao campo das paixões. Nietzsche, na obra O nascimento da tragédia, estabeleceu uma síntese sobre as belezas apolínea e dionisíaca, não as colocando como opostas, mas complementares. A beleza apolínea, geométrica e canônica, seria completada pela beleza dionisíaca, alegre, perigosa, diria até insana, e que foi oculta até a idade moderna. Onde a ideia de eternidade era uma potência criadora de beleza. Hegel, já falava que “o prazer com o belo é um deleite narcísico”. Mas, estar belo é estar em harmonia apenas na superfície, pois internamente nenhum ouro nos orna, não há brilho onde não há luz. A escuridão interior é inconsciente, nem feia nem bela, é um Hades a ser transposto por Orfeus em busca de sua paixão, sua beleza personificada na imagem de Eurídice. E esta viajem que muitos temem fazer, não apenas em busca do “self”, do resgate da sua beleza, materializada na busca da verdadeira paixão, do amor.
Kant, não reconhecia o belo como valor absoluto, para ele existiam dois tipos de sensações: a aisthesis e a estética. A sensação aisthesis é sensível, empírica, e objetiva (ligada ao objeto), ligada às coisas lógicas que formam um juízo determinante, com uma exigência de universalidade e de necessidade. E a sensação estética referente à ciência do belo, subjetiva, na fruição do prazer e desprazer, e ligada ao sujeito para formar um juízo estético/reflexivo sem interesse em sua função, onde um objeto é simplesmente belo. Ele classificou a beleza em natural e artística. A primeira sendo simplesmente a coisa bela, e a segunda uma bela representação de uma coisa( a obra de arte).
Longe do conceito de Platão e de Aristóteles, que consideravam a beleza proporcional a bondade, valorizando a contemplação da natureza e tendo a sabedoria como forma mais sublime da beleza, hoje cuidamos muito da estética, mas, sem questionar seu valor real, seja numa visão cosmológica ou antropológica.
Existem muitos prismas para definir o belo (semântico, psicológico, metafísico, ético, axiológico). Porém, é esta retórica bela e apaixonante, com múltiplas definições que nos faz esquecer do seu oposto, a feldade. E como diria um cearense legítimo “Oh bicho feio!”, na sua mais espontânea exclamação diante de alguém desprovido daquilo que temos como beleza. Nos causando repulsa. O termo “feiura” em latim foeditas, que quer dizer “sujeira”, “vergonha”. Em francês, laideur vem do verbo laedere, que significa “ferir. E Hässlichkeit, em alemão deriva de Hass, que significa ”ódio”. Apetite irascível, segundo Tomás de Aquino, que remete ao oposto do amor, assim como a fuga e o desejo, a tristeza e o prazer. Esta incompletude é cada vez mais notada pela exposição na mídia de modelos com seus rostos e corpos esguios que moldam os padrões de beleza. E aos mortais que serão devorados por Cronos inevitavelmente, e se sentem inferiorizados, cabe apenas a busca ao consumo capitalista para embelezar seu corpo externamente, buscando a mudança do contorno corporal desenfreadamente em academias de ginástica, ou no bisturi dos cirurgiões plásticos. Mas qual o limite da beleza? Que mal existe em quer melhorar sua imagem, sua autoestima? Até onde nossas imperfeições nos tornam culpados? Onde se encontra a identidade de alguém após um transplante de face? Qual o limite da nossa paixão pela estética? 

Isaac Furtado
Artigo publicado no Jornal Gazeta do Centro-Oeste, 19/04/11    

              


Bibliografia:

  1. A Lei do mais belo: A ciência da beleza. Nancy Etcoff. 1999
  2. A História da Beleza. Umberto Eco. 2004

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

O artista e o cirurgião



Acredito que todos tenham o seu talento pessoal, ou algo próprio a transmitir. O meu, desde cedo, já descobri nas artes visuais. Gosto muito de dizer: sou artista e estou cirurgião plástico. Pois quando decidi fazer medicina, já sabia que o meu lugar era na cirurgia plástica. Na escola do Prof. Ivo Pitanguy encontrei a minha maior inspiração, com aquele que não ensinava apenas técnicas, mas transmitia a sua filosofia. Lá passei três anos como residente e também realizando os desenhos de técnicas e cirurgias que o professor me solicitava. Aquarelas que fazia com muito gosto, que também me ensinavam a compreender melhor as cirurgias. Para fazer esse serviço, tinha uma bolsa da PUC que muito me ajudou. Hoje, em Fortaleza, sigo o meu caminho me dedicando a cirurgia e sempre que possível às artes. Nossa especialidade demanda muita atenção, mas não abandono meu lado artista, pois, acima de tudo, os dois são trabalhos perfeccionistas.

O homem deve parar e repensar o seu cotidiano, para não entrar na rotina esquecendo o objetivo da vida. Sempre na busca da realização pessoal e da felicidade. Todos devem procurar o seu dom, na música, na dança, na poesia, nas artes plásticas, no teatro ou na oratória. Afinal são nove as musas inspiradoras da mitologia grega, você deve se afeiçoar a uma delas. E desenvolver uma atividade paralela que irá lhe enobrecer. Nós médicos, nos tornamos muito técnicos e pouco humanos. As artes nos sensibilizam para os pequenos detalhes e as coisas simples da vida. Pretendo seguir na minha estrada, revezando entre o pincel e o bisturi. Pois, nos dois existe a criação, em aquarelas ou Mamoplastias; em telas à óleo ou Rinoplastias.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016


SUSPIROS 

A perfeição não existe, somente suspiros.
Como o véu da cortina a balançar com a brisa.
O velho torso repousando sobre a mesa.
A nudez cálida da modelo mostrando-se
pouco a pouco, sem igual.

O mármore de tez pálida, querendo
mais e mais ser imortal.
A argila ainda úmida,
revelando traços do artista,
sua cativa e única digital.

O molde de gesso já trincado,
imperfeito e frágil como nós.
Os que não apenas respiram,
mas anseiam por mais,e por fim, 
realizados suspiram.


Foto do filme O artista e a modelo, 2013.
Poesia: Isaac Furtado