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quinta-feira, 14 de abril de 2022

O que você vê?

 


O que você vê?

Um olho, um ovo,

ou o coração sagrado?

O que você vê mesmo?

A virtude ou o pecado?

Uma tabula rasa,

ou o número da sua casa?

A primeira letra do seu amor,

vê rancor ou bem querer?


Me diz, o que você vê?

Passagem, Páscoa, transformação?

Arte feita de forma ou abstração?

Vê um globo, uma fenda, 

ou um orifício?

E aí? Está difícil?

Pelo menos me diga a cor,

azul ou amarelo?

Borgonha ou Bordeaux?

Seja lá o que for,

me diga, o que você vê?


Isaac Furtado 

sábado, 19 de março de 2022

CALIGRAFIA



Levei milhares de anos, com traços e pontos cuneiformes para me aperfeiçoar. Arranhei do barro mole, aos pergaminhos dos cordeiros. Das sombras das rupestres, às pedras dos mais altos cumes. 


Desenhei hieróglifos em papiros, esculpi muitas guerras em obeliscos e pirâmides. Estelas foram fincadas no chão, todas dedicadas à glória da eternidade. Criei o zero e o símbolo de multiplicação. Somei tudo buscando uma perfeita equação, um símbolo para o infinito. 


Escrevi o mito do Alfa ao Ômega, agradeço aos gregos e romanos. Escrevi a fé nas tábulas rasas dos profetas por milhares de anos. Sejam eles Celtas, católicos ou muçulmanos. Escrevi a ciência de Hipócrates e de Avicena. 


Sou a beleza escrita, seja nas iluminuras góticas, ou nos calendários Maias, no Kanji japonês ou no cachemir chinês. Numa medina otomana ou num templo indiano. Seja na sinuosa Art nouveau ou nos ângulos da Deco. Eu sou mais que memórias, sou os códigos escritos da história que perdura. E do A ao Z eu sou o teu traço, teu registro, tua assinatura.


Isaac Furtado 




quinta-feira, 15 de julho de 2021

Os 5 As da Beleza Imortal

 


A Beleza Imortal é um conceito antigo, Aristóteles  já associava bondade e beleza. Ela transcende o corpo e remete ao legado do bem que você deixa no mundo. Podemos encontrar essa beleza através do equilíbrio do corpo e da mente. Criei os 5 "As" que nos ajudam a encontrar essa harmonia, e representam os cinco dedos da mão 🖐. Três são bons e estão no presente, logo devemos cultivá-los. E os dois ruins não existem no momento, pois um encontra-se no futuro e outro no passado, devendo ser afastados ou controlados. São eles o AMOR, a ALIMENTAÇÃO, a ATIVIDADE FÍSICA, a ANSIEDADE e a ANGÚSTIA.

O amor incondicional a tudo, ao trabalho, aos amigos, à família, à Deus. Pois, o amor é a chama que alimenta o bem, a felicidade, a alegria de viver, e a razão de existir. Na mão, o amor é o dedo polegar, o mais importante, fazendo o símbolo "legal" 👍. 

A alimentação vem em segundo lugar, pois somos o que comemos. Hoje, sabemos praticamente todas informações dos alimentos e suas propriedades. Nosso combustível deve ser bom e moderado, pois em excesso ele é maléfico ao corpo. Na mão ela é o dedo indicador 👉.

A atividade física vem em terceiro lugar, ela é o contraponto da alimentação, fundamental para o bom funcionamento de várias funções do corpo, melhorando praticamente tudo em nosso organismo, do sono à produção de hormônios. Na mão ela é o dedo maior.

Agora, os dois "A"s inimigos da beleza imortal. A ansiedade que se encontra no futuro. Ela é a causa da obesidade, insônia, stress, vícios, e outros males. O amanhã não existe, logo a ansiedade é apenas um reflexo da fraqueza da nossa mente, que pode ser controlada. O quarto dedo da mão, com função apenas de melhorar a preensão de objetos.

Por último, a angústia que representa todos os males da mente. Tudo que a psicologia luta para eliminar. As fobias, traumas ocultos no inconsciente, síndrome do pânico, depressão e melancolia. Todos são resumidos na angústia. Ela é o quinto dedo da mão, o menor, mas muito perigoso. A angústia está no passado, logo não existe no presente, mas deixou danos na mente, que por sua vez transmite para o corpo. 

Portanto, concentre-se no AMOR, na boa ALIMENTAÇÃO e pratique sempre uma ATIVIDADE FÍSICA. Assim, você atinge a sua plena harmonia, vivendo melhor e deixando seu legado do bem para posteridade. Pois, o seu corpo é mortal, o seu legado não, ele é uma BELEZA IMORTAL!


Isaac Furtado

domingo, 4 de abril de 2021

Beleza e Medicina




A beleza está no conjunto da obra. A beleza imortal é o legado contínuo que transcende o corpo. A história da beleza humana através da arte, é a melhor forma de entender a evolução do que era considerado belo. Até o século XX, com a arte se desvencilhando da realidade. E a medicina ajudando na busca da beleza humana como ideal.

A medicina tem como objetivo primordial, prolongar a  saúde e perpetuar a vida o maior tempo possível. Em paralelo, a beleza na natureza também tem o objetivo de perpetuar a vida através do acasalamento. Pois, as espécies mais belas são mais procuradas, fazendo uma seleção natural. 

A história da medicina é muito baseada na Iatro História, muitas tentativas com erros e acertos. Hoje, estamos vivendo o exemplo do Coronavírus.

A primeira ideia de beleza nos vem à mente através da visão. E a citação “ A beleza está nos olhos de quem a vê” do poeta espanhol Ramón de Campoamor y Campoosorio, é a mais vulgarmente declamada.

Durante a evolução da humanidade, muito mudou em relação à beleza. Muitos padrões tornaram-se regras de ouro, outros foram rompidos. Para algumas culturas, pouco mudou. Como certas tribos africanas, onde os adereços ficaram inalterados por milênios. Um exemplo, é a tatuagem feita com espinhos que ferem a pele, findando em queloides. Esses relevos formam desenhos pelo corpo e pelo rosto. Adereços, jóias, cosméticos, todos empregados em nome da beleza.


O substantivo grego clássico para "beleza" era κάλλος, kallos, e o adjetivo para "belo" era καλός, kalos. Em grego koiné, a palavra para bonito ou belo era ὡραῖος, hōraios, um adjetivo que vem da palavra ὥρα, hōra, que significa "hora". No grego koiné, a beleza então era associada a "estar em sua hora / seu momento".  A palavra “bonito” chegou ao português no século 16. Descende do latim bonus (bom), provavelmente depois de uma tabelinha com o espanhol bueno, do qual tomou emprestado o diminutivo. Em resumo: bonito, na origem, é bonzinho. E para não deixar dúvida alguma no ar, “belo” vem do latim bellus, também diminutivo de bonus.


Os tipos de beleza podem ser divididos de três formas: Matemática, Genética e Cultural.

A beleza matemática é analisada de três formas: Harmonia, Proporção e Simetria. 

A harmonia é a ótima relação de proporção entre estruturas de uma determinada região, ou estrutura. Proporção é a relação de medidas constantes e em paralelo à outras estruturas. Como dizia Tomás de Aquino: “Os sentidos exultam ante coisas bem proporcionadas, já que estas se lhes assemelham; pois também os sentidos são uma espécie de razão, assim como qualquer força cognitiva.”

O matemático italiano Leonardo de Pisa, conhecido com Fibonacci, desenvolveu no século XIII uma sequência de números, onde a soma dos dois seguintes davam o valor do próximo. Formando uma espiral encontrada por toda natureza. De uma concha Nautillus, à espiral da Galáxia Via Láctea. 

A simetria dentro da beleza matemática pode ser classificada em: Rotacional, Translacional e Bilateral (Axial). Rotacional vista na Estrela do Mar. Translacional nas colmeias das abelhas. E a Axial é vista no nosso corpo, lado esquerdo e direito, dividida por um eixo axial. 

A beleza genética é transmitida pelas gerações, sofrendo pequenas mutações ao longo do tempo, com evoluções benéficas para sobrevivência da espécie. Os traços, como o tipo de cabelo, cor da pele, formato do nariz, fazem parte da beleza genética. No futuro, a ética na medicina irá determinar os limites, como a cor dos olhos, até altura da pessoa.

Finalmente, a beleza cultural formada pela associação de todos adereços de determinada sociedade. As pinturas corporais, tatuagens, queloides propositais, alongamento do pescoço - Mulheres Girafas na África, os pés pequenos das mulheres chinesas, ou os espartilhos das mulheres nas cortes europeias.

As primeiras representações artísticas eram amuletos para atrair uma boa fecundidade. Conhecidas como Vênus da Fecundidade. A mais antiga é a Vénus de Hohle Fels (35.000 anos. com 6 cm, encontrada em 2008 na Alemanha, com hipertrofia das mamas, e  regiões genitais. As mais famosas são a Vênus Willendorf 23.000 anos e 11 cm), e a Vênus de Laussel, com 46 cm. 

Os primeiros cânones de beleza foram criados no Egito, onde toda história foi transcrita nas paredes das pirâmides, e se eles queriam atingir a imortalidade, de certa forma, conseguiram, pois, seu legado ainda está lá cinco milênios depois. Os baixos relevos e as esculturas nos mostram uma civilização avançada em todos os aspectos, nas artes, medicina, engenharia etc. Os padrões de beleza esculpidos em bustos, como na esplêndida cabeça de Nefertiti, foram copiados pela civilização Grega no seu período arcaico. A fusão das duas civilizações pode ser encontrada em Alexandria, no período Helenístico, que teve seu final trágico na figura de Cleópatra VII, mito que reverberou por séculos, como ícone de beleza. Hoje, sabemos que sua beleza resplandecia não do seu físico, mas da sua capacidade de sedução, no domínio de várias línguas e persuasão.  

Impressionado, disse Napoleão na sua viagem ao Egito em 1798: “Do alto dessas pirâmides, quarenta séculos vos contemplam.” 

A Grécia foi indubitavelmente o berço da civilização ocidental, onde o domínio da escultura chegou ao ápice. As medidas humanas foram transcritas para construir os seus templos, utilizando o número phi (1.618) que era tido como divino, e sua proporção áurea era copiada por todos. Um dos artistas mais consagrados da época foi Policleto, que nos deixou grandes exemplares (como Doríforo, Discóforo, Hércules, Hermes, Hera, Efebo Westmacott, Amazona ferida), todos baseados no seu livro Cânone.

A Vênus de Milo, supostamente de Alexandros de Antioquia, 130 a.C. é um exemplo do perfil Grego. Na face, a região da glabela alta, continuando com o nariz, representa um exemplo deste padrão de beleza.

A história de Frinéia é muito interessante. Uma mulher muito bela na Grécia antiga, que era cobiçada para ser modelo de artistas. Contam que Eutias a acusou de profanar os Mistérios de Elêusis, mas, no momento do seu julgamento, Eurípedes disse: Mas, vêde: não seria doloroso condenar à morte a própria deusa Vênus? Piedade para com a beleza! A beleza a condenou e a salvou.

A história mitológica da Guerra de Tróia, também tem origem com a beleza. Páris escolheu Helena, mulher de Menelau, como recompensa por eleger Afrodite sendo a mais bela, em um concurso entre três deusas. Dando origem à guerra entre Troianos e Atenienses. 

Do outro lado do planeta, a civilização Olmeca, na América Central, com o Povo Jaguar (1500 - 400 aC.) fazia esculturas de cabeças colossais com fácies negróides.

No Brasil, o crânio de Luzia com traços negróides mostra uma civilização anterior aos ameríndios. Com mais de 12 mil anos. 


Umberto Eco, no livro A História da Beleza, nos fala da Beleza Apolínea e da Beleza Dionisíaca. Onde a Apolínea representa a beleza dos cânones, matemática, e a Dionisíaca é mais pela atitude, fugindo dos padrões clássicos.  


Na idade média, a arte volta-se para a religião, adornando igrejas e catedrais.


A obra O Nascimento de Vênus (1478), de Sandro Botticelli (1444 - 1510) é o primeiro tema renascentista exclusivamente leigo e mitológico. Mesma posição pudica é vista em várias Vênus (V. Capitolina, séc. II aC.)

  

No livro De divina proportione, Frade Franciscano Luca Pacioli. Com ilustrações de Leonardo da vinci nos deixou cânones clássicos da beleza. 


Frases clássicas sobre o belo:


“Beleza: onde vejo ordem na variedade, e onde, embora todas as coisas divirjam, todas concordam.”  Alexander Pope (1688 - 1744)


“O prazer com o belo é um deleite narcísico” Hegel.


No início do século XX o modelo de Le Corbusier - LE MODULOR, também era baseado no número Phi. O cubismo retifica a natureza, a estética é desvencilhada da natureza, a arte segue um caminho livre, pois a fotografia passou a cumprir o papel da arte por séculos. Vemos escolas variadas, como o Expressionismo, Impressionismo, Fauvismo, Cubismo, Abstracionismo, Arte moderna e Contemporânea, totalmente desvinculadas da estética.

A beleza na medicina vem da necessidade da reconstrução, principalmente no pós-guerra, com reconstruções de face, queimaduras, órteses de membros, e depois com a estética. Um nome que eu não poderia citar seria do professor Ivo Pitanguy, que nos deixou um legado, como a maior expressão da cirurgia plástica brasileira, elevando o nosso país como referência internacional. Um capítulo novo da medicina e da beleza é a Cirurgia Bariátrica, com a cirurgia geral e a cirurgia plástica tirando os estigmas da obesidade.


Concluindo, a história da beleza é o reflexo do conteúdo cultural da humanidade. A busca da imortalidade através da evolução da medicina. Construindo e desconstruindo, de uma arte feita um círculo sem feições, até múltiplas medidas bem definidas. Evoluindo de proporções corporais como guias exatos, até uma arte contemporânea sem regras, que hoje, não são padrões para a beleza humana. E, sempre, seremos atraídos por uma beleza imortal.


Isaac Furtado
Resumo da palestra Beleza e Medicina. Proferida na Reunião científico-cultural Ordinária, na Academia Cearense de Medicina. Em 11 de março de 2020. 



sábado, 7 de novembro de 2020

Olhar da Rainha




 "Seus olhos são penetrantes

e como torres inflexíveis, 

muralhas impenetráveis.


Seus peões, exército que não recua.

Jamais empata, como na vida,

onde só existem vitória ou derrota.

Jogo de quem não mata, morre.


Seus movimentos adoráveis,

com cavalos galopando livrementes,

e bispos a excomungar infiéis.


Sua precisão é matemática, 

em tabuleiros embriagantes. 

Vislumbrados além da mente,

do teto. Uma rainha cativamente!"


Isaac Furtado  

quinta-feira, 16 de julho de 2020

POVO BRASILEIRO



Somos um país de Sincretismo. Religioso, político e social. Somos o país do futebol. Amálgama de uma terra farta. Somos um nó Górdio, que nunca aparta. Somos um povo valente, plácido e contente.  Somos mais do que dois lados. Filhos de Machado de Assis, Rachel de Queiroz e muitos "brasis". Somos mistura, feijoada, capinha, cocada, pão de queijo e vatapá. Queremos simplesmente amar.

Isaac Furtado

sábado, 20 de junho de 2020

Rio Lete


Somos os reflexos dos nossos atos.
Somos a chuva que deu a vida.
Somos o vento que trouxe a chuva
e mudou os reflexos.
Todos filhos de Maia.
Todos sob o seu véu,
sob turva realidade.

Somos descendentes de Aleteia,
Somos carentes da verdade.
Somos metades parecidas.
Todos mergulhados no Lete.
Todos buscando respostas,
de perguntas esquecidas.

Isaac Furtado

RIO LETE Aquarela e tinta dourada sobre papel. Díptico de 24/36 cm. By Isaac Furtado
Obra baseada na escultura "Amnésia" de Flávio Cerqueira, para o desafio do MASP #maspdesenhosemcasa
Lete literalmente significa "esquecimento". Seu oposto é a palavra grega para "verdade" - Ateleia. Na mitologia grega, Lete é um dos rios do Hades. Aqueles que bebessem de sua água ou, até mesmo, tocassem na sua água experimentariam o completo esquecimento. Fonte Wikipédia.


domingo, 7 de junho de 2020

Our cry is one




#ourcryisone


Por amor!
Nosso grito é um só. 
Então, respeite
sua cor, Seu Deus,
Seu time, sua paixão.

Qualquer cidadão tem dois limites,
entre o seu dever e o seu direito,
sei que existe um só coração.

Portanto, não alimente os lobos
da destruição. Alimente aquele 
que vive, constrói e clama.
Nosso grito é um só. 
Por amor!
.
.

For love!
Our cry is one.
So, respect
your color, your God,
Your team, your passion.

Any citizen has two limits,
between your duty and your right,
I know that there is only one heart.

So don't feed the wolves
of destruction.  Feed that
who lives, builds and cries out.
Our cry is one.
For love!

Isaac Furtado 

quinta-feira, 21 de maio de 2020

O farol

Hoje acordei cedo, antes da hora,
na verdade, antes do dia nascer.
Ainda no torpor da noite,
olhei pela fresta da cortina,
vi os primeiros tons da manhã,
as primevas cores do alvorecer.

Era o Sol a nos animar.
Tingindo em tons violáceos,
da primeira e púrpura luz
de uma manhã vazia.
Todos ainda a dormir,
mas ele insistiu,
desafiando o horizonte.

Pintando nuvens distantes,
agora de laranja, quase rubro.
Eram os primeiros acordes,
da divina sinfonia do dia.
Mas, ainda ninguém acordou.
O Sol já a meio palmo
do céu então se irritou.

Ordenou aos ventos
que se retirassem,
nenhuma folha se movia.
Foi quando ele derramou
o seu calor descomunal
sobre os pobres mortais.
Mas, ainda ninguém apareceu.
Nas ruas, duas almas perdidas.

Apolo sem entender, enviou 
Mercúrio para terra, querendo 
entender o porquê daquela calmaria.
Em segundos ele retornou.
  • Meu senhor, uma peste!
  • Como assim mensageiro?
  • Um contágio, uma praga!
  • E quem se atreve a ser mais
poderoso do que eu?
  • Um ser invisível, minúsculo, 
e ainda porta uma coroa.
  • Nenhum rei irá me destronar!

E assim o dia passou, quente, vazio,
num descompasso inédito, desesperador.
Em Zênite o Sol não abrandou seu calor.
Mostrou que ele é o mentor da vida.
Caminhou sua implacável sina para o Oeste.
Naquela tarde morna, ainda ensaiou pintar
com uma paleta diferente. 
E em pesados tons de azuis marinhos
foi deitar-se despercebido e irritado.

Passando o bastão para Nix,
deusa e rainha da escuridão.
Mas, ainda havia estranheza.
E nem a beleza da diva
fez os humanos felizes.
Todos estavam acuados,
trancados nas suas alcovas,
dormentes, apavorados.

Foi quando Minerva se apiedou.
Deu de presente para os frágeis humanos
um farol. E avisou!
  • Sejam clementes!
  • Sigam a luz pulsante da vida.
  • Sejam pacientes!
  • Segurem a esperança perdida.
  • Salvem o seu próximo!
  • Sempre haverá um novo dia.

Isaac Furtado 

Escrito no dia 21 de março. No Dia Internacional da Poesia. 








quarta-feira, 20 de maio de 2020

A MESA DA CRIAÇÃO



A mesa da criação estava posta. A luz, o verbo e a proposta de tudo que existe. A inspiração veio da Sistina, obra-prima do mestre Renascentista. Afresco central que foi o primeiro passo daquela construção. Mas, sobre aquela mesa não havia garfos, nem facas. Postos quase em simetria, estavam o Criador e a criatura. Figuras que depois de dias de trabalho misturaram-se, ficaram somente ossos expostos, descarnados de qualquer dor. Articulados em extensão, na ânsia por um encontro, uma arrebatação. E no toque da falange distal fez-se Adão, arremedo de um único projeto. Homem faltante e faltoso, bom e maldoso na amálgama da confusão. Sedento por sua Eva, ansioso por um ato, uma consumação, um pecado ignorado.
De lá para cá muita história aconteceu, o fogo de Prometeu, os romances de Voltaire, o tempo inventado com ponteiros a nos lembrar. Mas, o tempo não gira, ele apenas segue. Fugidio como a areia que escorre por entre os nossos dedos, como a sombra que passa sob os nossos pés. "Tempus fugit"!
Nós somos criaturas de dupla essência, uma alma pedinte por salvação e um corpo sedento por paixão. Mas, quem vencerá? O vírus ou a vacina? O tempo ou a sorte? O Sol ou a neblina? A pergunta ou a resposta? Quem será mais forte no poema de Kipling, o rei ou a plebe? Quem será de se senhor, nessa vida que segue?
Eu apenas pinto velas e esfinges, mementos da nossa impermanência. Transcedo o triste momento, seguindo a minha vontade. Criando esboços sobre espuma de sabão. Sou súdito de uma beleza, de uma lunática ambição, a imortalidade.

Isaac Furtado 

sábado, 16 de maio de 2020

Patuás e Canários


Um vento estranho soprou do Oriente.
Não foi o pólen das margaridas que ele levou.
Tão pouco, disseminou o amor entre os homens.
Rapidamente ele cruzou montanhas,
mares, barreiras intransponíveis.

Ele foi rápido e atroz! Secando o trigal
de repente, nas primeiras horas de
uma manhã dormente.
Os dois pilares dóricos não foram fortes
o suficiente, e o mundo inteiro quase desabou. 

Era um vento sem tempestade,
e nenhuma folha se mexia,
somente homens tombavam.
Pessoas fugiram para suas casas,
com seus sonhos, patuás e canários.

A primavera passou ao largo,
sem cheiros ou amores.
O rei invasor foi um vento tirano,
avassalador e soprou, soprou.
Humilhando Átila, Gengis Gan
e Nabucodonosor.

Doravante, mais do que sorte precisaremos,
e o clichê dos três "F"s fez-se reticente.
Foco na organização do lar, do trabalho,
corpo e mente.
Força para atravessar tormentas
e nadar contra a corrente.
Fé, pois amanhã será diferente.

Assim, como um dia foi, uma tarde é,
uma noite será melhor, ou pior de repente,
mas nunca será indiferente.
Do trigo seco fez-se pão, e de um ninho
displicente nasceu um pequeno rebento.

Foi quando todos saíram de casa,
agora mais atentos,
olhando sempre para o horizonte.
O mundo era agora diferente,
estávamos vacinados,
vigilantes.


Isaac Furtado 

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Trilogia Escarlate




I

Dorme e acorda a cidade.
Acordam e dormem os sonhos.
Anseios, angústias em comunhão.
E já se vão dois meses.

Muitos vaticinam em vão.
Da rua eu tenho medo.
Agora, em fobia eu pareço.

Na vida, tudo tem o seu preço.
Uma máscara ou um avião.
Houve o tempo da "belle epoque",
do Tostão e da escravidão.

Hoje vivemos em "lockdown".
Mascarados em figutiva e
literal figura, ladrão e cidadão.

II

Elas passavam levemente. 
Lentamente tingindo-se de rubro.
Ah, que belo tempo perdido!
Ah, que paleta escarlate!

A cidade continuava lá. 
Parcos transeuntes a perambular. 
As casas, os prédios respiravam.

Eu suspirava olhando o horizonte. 
E as nuvens passavam,
como passa o gado, os desejos.
Mas, para onde?

Do tempo, eu conheço a sina.
O seu destino, a sua eterna 
e doravante cantiga.

III

E a noite tombava em cianos tons.
Pesadas nuvens iriam passar.
O céu, o sereno, a mágoa também.
Por último, se foram os marrons. 

Todos estavam lá na despedida. 
O último Cúmulo ferido partiu,
arranhando o firmamento.

Efêmero era aquele momento.
Certo e curto o seu vencimento.
Paro ali porque quero, e espero.
Pois, amanhã eu não sei.

Ouço a minha amada.
Até mais doce Aurora!
Até semana que vem!

Isaac Furtado