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sábado, 27 de abril de 2019

Vírus



Meio vivo, meio morto ele segue.
Qual a sua essência? O seu papel?
Será que foi destinado por deuses
a nos acompanhar pela eternidade?

Mas, ele voa, congela e consegue.
Já sinto nos olhos uma dormência,
na boca o amargo gosto do fel,
e a febre me arde sem piedade.

Muito busca por seu hospedeiro.
Não por amor, ou por dinheiro.
Apenas para se dividir, pois
nem de sexo ele precisa.

Mal sabe se é um herói, um bêbado,
um condenado, ele investe certeiro.
Sem emoção, nem bem, nem mal,
apenas busca por um herdeiro.

Mito de três letras, somos primos
moleculares. Será que evoluímos?
Ele apenas se esquiva e transmuta.
Nos resta fortaleza e resistência.

Muitos tombaram aos seus pés.
Diminuto ser, se podemos dizer,
que habita em tudo, em todos.
Uma peste, da morte um viés.

Mais um espirro, um latejo na fronte.
Suplico por uma vacina para dor,
um chá quente. A semana já passou,
e ainda não vejo um horizonte.

Isaac Furtado

quarta-feira, 24 de maio de 2017

QR PORTRAIT

Qual é o seu código? Como é o seu retrato? Como você quer ser pintado?


Vivemos numa sociedade onde todos são registrados de alguma forma, com números de CPF, CI, CRM etc. Os números evoluíram para os códigos, de barra, ou os QR codes que são lidos por leitores ópticos, podendo identificar tudo em seu entorno. Você tem o seu, queria ou não.
Temos o nosso código primordial, o DNA, uma sequência de bases ondes estão todas as informações das quais somos formados, os nossos genes. Dados transferidos para os nossos descendentes, dando assim continuidade à vida.
Temos os códigos de conduta moral e ética, que nos mantêm unidos em sociedade até certo ponto. Códigos que chamamos de leis, as quais devemos respeitar e, em alguns momentos, até refazê-las.
E a arte tem o seu código? Claro! No entanto, em alguns casos, ela também se reinventa, quebrando as velhas regras e reestruturando tudo. Temos os códigos de beleza, com o seu número áureo que desde a antiga Grécia nos encanta. Temos também a arte abstrata que parece não seguir nenhuma regra, mas inconscientemente, tem um padrão fractal.
E assim, os códigos seguem nos guiando. A vida continua bela e indomada, as leis obedecidas pelo mundo, e a infinita arte admirada.

domingo, 24 de julho de 2016

Máscaras da Humanidade

Os filósofos há muito tempo já nos falam do paradoxo do contrário, onde a juventude e a velhice coexistem no mesmo ser, mesmo corpo e mesma alma. Existe sim beleza na velhice, no “saber envelhecer”, pois existem aqueles de setenta anos que têm a mente de jovens, e no contrário, aqueles que já nascem velhos. Não como no filme “O estranho caso de Benjamin Button” em que o protagonista vai ficando mais novo com o passar do tempo, até morrer como um bebê no colo da sua amada, mas, pessoas que negam veementemente as marcas do tempo. Ao contrário de muitos filósofos, eu acredito que as marcas externas impressas na nossa face não são o verdadeiro problema, mas sim, as rugas escondidas na mente que tornam velhos aqueles que colocam suas máscaras sem cuidar do seu interior.


Os anseios narcísicos são maléficos quando, isoladamente, são buscados de uma maneira impensada e como forma de preenchimento de algum vazio, ou trauma interior. E desta maneira torna-se danoso àquele que em nome da autoestima trata apenas das máscaras superficiais.
Confrontando a cirurgia plástica e a psicanálise, eu diria que a primeira trata da máscara externa, e a segunda, das máscaras escondidas nas entranhas do inconsciente. As duas são de difícil tratamento, a cirurgia exige uma habilidade por parte do cirurgião plástico, não apenas de saber operar, mas de compreender os anseios particulares de cada paciente. E a psicanálise, pela paciência por parte do psicanalista em saber conduzir por anos uma catarse que não necessita de bisturi, onde o mal será extirpado pela palavra do analisado. E desta forma, estas máscaras podem sim, ser tratadas e cambiadas em nome da beleza, ou da juventude.
Não é pecado querer ser jovem, ou pensar-se como tal. Estamos vivendo em uma era de muitas benesses, onde a medicina oferece todo amparo para o corpo (da pele à calvície, do hormônio bioidêntico ao alimento integral, da cirurgia endoscópica ao quimioterápico). A literatura oferece toda informação possível para construção do nosso saber (da internet à livraria, da literatura de autoajuda às biografias completas, do artigo científico às redes sociais).
Hoje, a informação está literalmente no ar, só não se informa quem não quer. Só envelhece mal quem quer, pois todos sabem dos males do cigarro, do colesterol etc. Tem pessoas que ainda comem batata frita com refrigerante, que vivem de maneira sedentária e frequentam fumódromos. Em tudo há dualidade, o fazer ou não fazer o certo ou o errado. A natureza humana é dual, o corpo e a mente, o conflito e o equilíbrio. Devemos caminhar juntos em prol do “saber envelhecer”, e a fonte da juventude está no equilíbrio, no caminho do meio. Em comer bem, não comer muito, em dormir bem, acordar, ser feliz, amar, fazer cirurgias plásticas, terapias, brincar com as máscaras do tempo como no teatro, sabendo que sempre existirão as duas – a da comédia e da tragédia.

Isaac Furtado

quarta-feira, 13 de abril de 2016

O nascimento da beleza

Vênus de Hohre Fels, a imagem feminina mais antiga.

A admiração pela beleza remonta aos primórdios da civilização. O diferencial entre os animais que procuravam seu parceiro entre os mais belos da espécie, e os homens, que além deste aspecto, buscavam a beleza através do adorno, encontra-se nos nossos primeiros rituais. A característica primordial da humanidade é tida, hoje, como o ato de sepultar os seus mortos. E a preparação para morte já existia muito antes das pirâmides do Egito, onde os primeiros sinais de sepultamento datam de mais de cem mil anos. Os restos mortais em todas as tumbas espalhadas pelo mundo são ricas fontes de pesquisa arqueológica, pois além dos ossos, muitos utensílios eram deixados com seus donos. A transformação do corpo em busca de adquirir mais beleza e status social, pode ser notada, por exemplo,  em um colar de conchas, encontrado há setenta e sete mil anos numa caverna em Blombos, na África do Sul. Hoje, os índios são representantes legítimos, e herdeiros desta tradição, com seus cocares, batoques, brincos, plumas e pinturas corporais.
Quando o homem tornou-se mais adaptado ao clima, diminuiu sua migração em busca de alimento, deixando assim de ser nômade. Ele passou a construir suas primeiras casas e povoados, com isto, veio o sentimento de posse. O patrimônio começou a existir através domínio das terras, e principalmente através da herança dos filhos, que iriam da continuidade a sua linhagem. O papel da mulher passou a ter mais importância, e os núcleos familiares foram se formando. A fertilidade da terra foi associada à procriação feminina, e, de alguma forma, este aspecto tinha que ser representado. 
A arte foi criada, não apenas para ser admirada, mas como uma maneira de contar as histórias das caçadas, dos rituais religiosos, ou aspectos sexuais. Tornando-se assim, uma porta para o mundo estranho e desconhecido, das poderosas forças da natureza.  O homem tinha que se proteger deste sobrenatural, e os seus rudimentares objetos cortantes (como facas e lanças) não eram suficientes. Desta forma, os amuletos de proteção foram criados. Alguns destes pequenos artefatos chegaram até nós, e os mais impressionantes são as esculturas de representação feminina. Todas procurando mostrar através da sua exuberância o aspecto reprodutivo, com as mamas bastante volumosas, os quadris largos, e em alguns casos desproporcionais. Onde a representação da face, das mãos e dos pés não eram bem definidos, ou até inexistentes. Estas esculturas foram denominadas de Vênus, em alusão à deusa grega relacionada ao poder se sedução feminino e da fertilidade.
Hoje, em torno de, trezentas Vênus estão espalhadas pelos principais museus de história natural do mundo. Uma das mais famosas é a Vênus de Willendorf, com cerca de vinte e três mil anos, feita de calcário e pintada inicialmente de vermelho. Esta Vênus, mesmo com os seus onze centímetros de tamanho, tem uma grandiosa força representativa. Sua cabeça toda trabalhada na forma de tranças, não mostra a face. Os seus braços, quase inexistentes, repousam sobre as mamas, que por vez, são muitos grandes, assim como o abdome e a vulva.
No entanto, a imagem feminina mais antiga é a Vênus de Hohle Fels (foto), esculpida há mais de 35 mil anos, em marfim de mamute, com apenas 6 centímetros de tamanho, encontrada na Alemanha. Outras estatuetas merecem ser citadas, como a Vênus de Brassempouy, Lespugue, Sireuil, Savignano, Grimaldi, Kostienki, de Dolni Vestonice, de Malta, D’Avdeevo, Cucuteni, La Dormeuse de Malte, e Laussel. Nomes desconhecidos que foram as primeiras musas da arte, testemunhas do nascimento da beleza. Padrão que mudou muito nos nossos cem mil anos de história, na eterna busca pela beleza.

Fonte: Livro 100.000 ans de Beauté, vol. 01 - Préhistoire/Fondations; Gallimard; 2009

terça-feira, 6 de maio de 2014

Os juros da saúde

A nossa vida é cheia de verdades transitórias, o que hoje é tido como benéfico para nós, amanhã pode não ser. Um eterno mutatis mutandis na nossa saúde. E é fundamental estarmos informados, para fazer as mudanças na hora certa. Com relação aos alimentos, temos exemplos clássicos (como o ovo, o café, a pimenta, o chocolate, até a gordura animal), às vezes, estão por cima e outras por baixo. Os alimentos são aliados e inimigos diários, temos que aprender e como já dizia Hipócrates: “fazer do alimento o medicamento”. A banana é um excelente exemplo de muitos benefícios para nosso corpo. Ela é fonte de muita energia e sempre é utilizada por atletas durante seus exercícios. O preço da banana não faz jus ao valor que ela agrega ao nosso corpo. “O valor do amanhã” é o título de um livro que recomendo, do autor Eduardo Giannetti. Ele fala de um eterno pacto entre o tempo inexorável e o que pretendemos fazer da nossa vida. O que é melhor, viver a mil por quarenta anos, ou viver a cem por cem anos? Comer uma banana ou um sanduíche? Tudo que fazemos tem o seu preço, temos que ter consciência e atitude diante deste fato. Esse livro me foi presenteado por um tio, já com os seus oitenta anos, a quem prezo muito. Ele, dentro de suas muitas qualidades, tem um defeito, é fumante há uns sessenta anos. Os juros do prazer de fumar estão sendo cobrados dele agora, já operou um câncer e agora está prestes a operar um aneurisma abdominal. O meu tio sabe dos males do cigarro, mas ele tomou sua decisão de enfrentar os “juros” de frente. Assim como o cigarro, a obesidade e o sedentarismo vão cobrar de nós os juros daqui a alguns anos. Assim como o empréstimo feito pelo comerciante Antônio ao banqueiro Shirlock, no livro Mercador de Veneza, de Shakespeare. Onde o valor do empréstimo era meio quilo de carne retirado do devedor. Nós também pagamos com partes do nosso corpo por todos os nossos empréstimos. Nós envelhecemos a todo instante, e se vivermos muito, vamos enfrentar a senescência. Dever um pouco não faz mal a ninguém, mas é muito melhor ter saúde sobrando e emprestar, nem que seja na forma de conselhos, literalmente: vender saúde! A carga genética que trazemos é como uma herança. Alguns nascem muito ricos, muitos são pobres e carregam no seu DNA muitas doenças e patologias que podem se manifestar logo no nascimento, ou ao longo da vida. Inclusive a Doença de Alzheimer e muitos tipos de câncer são males que estão aparecendo mais, pelo simples fato de estarmos vivendo mais. Então, já nascemos devendo um preço pela nossa existência, e quanto mais vivermos, mais podemos dever os seus juros. O Banco do tempo é incorruptível, não volta jamais e cobra de todos. Não sou economista, e como médico procuro dar um bom exemplo. Alimento-me de maneira saudável, não como carne vermelha e faço caminhadas regulares com exercícios de alongamento (os Ritos Tibetanos) há mais de dez anos. E o mais importante, procuro não oscilar mais de dois quilos o peso, sem alterá-lo há uns vinte anos. O conselho está dado, os juros serão cobrados. Portanto, mantenha sua saúde em dia. Faça o tempo trabalhar para você, ser seu aliado, seu fiador!

quarta-feira, 19 de março de 2014

Nas fronteiras do cérebro

Na antiga civilização Egípcia o nosso cérebro não era muito valorizado. Tanto é que, no processo de mumificação, ele era o primeiro a ser eliminado e esvaziado pelo nariz. O coração sim, este foi por muitos séculos considerado a fonte da vida e do saber. Hoje, em pleno século XXI, estamos mais próximos do que nunca de desvendar os segredos do cérebro. Da sua anatomia já sabemos muito, da sua fisiologia estamos cada vez mais próximos de entender os processos muito delicados de como funciona a memória, do caminho das vias sensitivas e motoras até as funções cognitivas. Freud já estudou muito os nossos sonhos, e deles retirou muitas interpretações que ainda hoje são discutidas por psiquiatras e estudiosos da área. Ele foi fundo, lá no nosso inconsciente, nas memórias mais escondidas e ocultas. No século XX, muito foi descoberto do córtex, das áreas específicas como visão, fala e audição. Os processos degenerativos do cérebro, como Alzheimer e Parkinson, são cada vez mais decifrados, podendo estar ligados a genes ativados ou desativados de modo anormal. Onde medicamentos e intervenções cirúrgicas são utilizados para diminuir o avanço destas patologias. No entanto, muito ainda falta. Com o advento da computação, houve uma oportunidade de criar programas, para que possamos fazer estudos de como o cérebro realmente funcionaria. Com a cibernética e a robótica foi criada uma interface entre o homem e a máquina. Hoje, já vemos mãos biônicas que são controladas por sensores fazendo uma conexão entre neurônios e cabos elétricos. Sensores ligados à retina fazendo pessoas enxergar novamente. Exoesqueletos já estão em andamento para que deficientes possam andar. Um cientista brasileiro, Dr. Miguel Nicolelis e os seus colegas da Universidade de Duke, têm planos de fazer uma criança paraplégica dar o pontapé inicial na copa do mundo em junho. Estudos em ratos demonstram áreas da memória que brilham quando ativadas. As cores do pensamento começam a ser pintadas em uma tela maravilhosa, e o artista principal com apenas 1,4 quilo tem muito a nos encantar. Acredito que muita coisa boa ainda está por vir, que nossos neurônios façam trocas com redes de informação através de terabytes para computadores super avançados. Que back-ups da nossa memória sejam feitos, e também possamos aprender apenas nos conectando a um pen-drive, ou algo parecido. Ficção? Talvez, mas só o futuro nos dirá!

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Forma e função

Todas as coisas existentes têm sua forma e sua função. Aristóteles já nos falava das quatro causas pelas quais as coisas eram feitas: formal, funcional, eficiente e final. Muitas adquiriram sua função após milhões de anos de evolução, como as penas das aves que inicialmente eram os pelos modificados de dinossauros. Estes animais foram diminuindo seu tamanho e sua plumagem foi crescendo, até poderem planar e finalmente voar (sua nova função). Como o Apêndice Vermiforme do nosso intestino, que inicialmente ajudava na digestão, e hoje não passa de um órgão vestigial, podendo ser retirado sem levar a nenhum dano ao nosso corpo (sem nenhuma função). Charles Darwin já nos falava da evolução natural das espécies há cento e cinquenta anos. Hoje, ele ficaria perplexo com o que sabemos sobre o DNA, as descobertas genéticas ou arqueológicas. A pouco menos de quarenta mil anos existiram, em torno de, quatro espécies diferentes de “seres humanos”: o Homo neanderthalensis (entroncado, ruivo, com nariz e testa largos, adaptado ao frio, que foi extinto há vinte mil anos ao sul da Península Ibérica); o Homo floresiensis (com apenas um metro de altura – como os “Hobbits” mitológicos, extinto na pequena ilha de Flores na Indonésia, há treze mil anos); o recém descoberto Homo denisovanos (ramo que migrou para Sibéria e sudeste asiático, semelhante ao Neandertal, e foi extinto há trinta mil anos); e por último o Homo sapiens. Nós prevalecemos, e aqui estamos escrevendo textos em “Tablets” de “touch screen” e os enviando por emails. Nossa inteligência e atual aparência são frutos de uma evolução que envolveu mutações genéticas após milhares de gerações. Migrações por terras quentes e frias, que alteraram a cor da nossa pele, do nosso cabelo e dos nossos olhos. Povoamos praticamente todos os espaços de terra do planeta. Em cada canto temos nossa cultura, nossas crenças e contrastes. As formas mudaram muito, de acordo com cada raça, modificando o formato dos olhos (orientais, caucasianos), das mamas (grandes, pequenas, flácidas), ou da nossa altura (dos Pigmeus aos Holandeses). No entanto, a única coisa que une todos nós é a vontade de ser belo, cada qual a sua maneira, cada um buscando sua forma ideal. A pouco mais de cinquenta anos, adquirimos efetivamente a capacidade de modificar o nosso corpo com sucesso e alterar a nossa forma. Inicialmente, as cirurgias tinham o objetivo apenas de salvar a vida. As guerras, com suas armas cada vez mais destrutivas, indiretamente contribuíram com técnicas cirúrgicas melhores para amputação de membros. Mais recentemente, conseguimos não apenas salvar os membros, mas recuperar seus movimentos (sua função). A cirurgia plástica estética surgiu da reparadora e tornou-se uma maravilha da medicina atual. Hoje, o Brasil é um expoente da cirurgia plástica no mundo, são feitas duas mil cirurgias por dia, com um total de setecentos mil procedimentos cirúrgicos por ano, onde mais de setenta por cento são estéticas. Mas, onde termina a estética e começa a reparação? O conceito atual é de unificação, pois nenhuma cirurgia reparadora pode ser feita sem visar uma boa estética na cicatriz, e nenhuma cirurgia estética pode ser feita sem preservar a função daquele órgão. Atuando assim na função e na forma, mas devendo ser realizada com prudência, e acima de tudo com ética. Pois, todo exagero é danoso e a virtude está no equilíbrio (In stat medio virtus).