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quarta-feira, 2 de novembro de 2022

eRRo




RAIVA, um sentimento nada nobre, mas, fazer o que? Somos humanos. Assim, o primeiro R se revela, num ranger de dentes, num tremer de olhos, engolindo a seco, alimentando a biles, num sofrer sozinho. E como errar de novo é fácil! Porém, continuamos pelo caminho, com a velha raiva nos consumindo em alma e carne, em pensamentos e ações. Ela é filha da ignorância com o desespero, e irmã do medo. E como tais é alimentada pela mera consciência da sua existência. Um parasita de si mesmo, uma ideologia sem méritos. Como o escorpião que pede carona ao sapo para atravessar o rio, os dois morrerão. Jamais passe um pano sobre a raiva. Pois, você irá simplesmente espalhá-la no ar como um vírus. Para raiva só existe um antídoto, uma vacina… O amor.

RANCOR, o segundo R que persegue a nossa história. Rancor de não ter a vitória, de nada fazer e tudo perder, de não conseguir esquecer, de se arrepender. Aquele que rima com dor. Andor dos fracos e dos desesperados. Rancor dos mal amados e dos abandonados. Seu maior aliado é a memória, a vívida lembrança de um ocorrido, mesmo que de tempos idos. O seu antídoto não é uma vacina que se repete. Como seria bom se lembrássemos somente dos momentos de alegria!  Infelizmente  não é assim, e para aliviar o rancor, somente um mergulho no rio Lethe. Suas águas frias e sua forte correnteza levarão tudo embora, restará somente o esquecimento. 

Por isso o ERRO tem dois Rs, o da raiva e o do rancor. Pois isso, nesse momento eu te peço por favor, não erre mais de uma vez. Ore para evitar o erro, melhore para viver com retidão. Para raiva uma rosa em botão, para o rancor o perdão.


Isaac Furtado 


sábado, 19 de março de 2022

CALIGRAFIA



Levei milhares de anos, com traços e pontos cuneiformes para me aperfeiçoar. Arranhei do barro mole, aos pergaminhos dos cordeiros. Das sombras das rupestres, às pedras dos mais altos cumes. 


Desenhei hieróglifos em papiros, esculpi muitas guerras em obeliscos e pirâmides. Estelas foram fincadas no chão, todas dedicadas à glória da eternidade. Criei o zero e o símbolo de multiplicação. Somei tudo buscando uma perfeita equação, um símbolo para o infinito. 


Escrevi o mito do Alfa ao Ômega, agradeço aos gregos e romanos. Escrevi a fé nas tábulas rasas dos profetas por milhares de anos. Sejam eles Celtas, católicos ou muçulmanos. Escrevi a ciência de Hipócrates e de Avicena. 


Sou a beleza escrita, seja nas iluminuras góticas, ou nos calendários Maias, no Kanji japonês ou no cachemir chinês. Numa medina otomana ou num templo indiano. Seja na sinuosa Art nouveau ou nos ângulos da Deco. Eu sou mais que memórias, sou os códigos escritos da história que perdura. E do A ao Z eu sou o teu traço, teu registro, tua assinatura.


Isaac Furtado 




sexta-feira, 10 de julho de 2020


O herói é tudo, só não é covarde.
É preto, pardo, branco.
É forte, baixo, manco.
Discreto, não quer alarde.

O herói é tudo, só não é ladrão. 
É louro, mouro, hetero, homo.
É doutor, soldado ou capitão.

O herói merece toda gratidão,
um grande buquê na glória,
uma medalha na pandemia,
um bronze, alegoria da memória. 

O herói salva um gato,
uma guerra, uma nação.
Não morre não, vira história. 

Isaac Furtado

Arte digital inspirada na obra O HERÓI (1966/2010) de Anna Maria Maiolino. Doada em 2015 para o MASP.

sábado, 16 de maio de 2020

Patuás e Canários


Um vento estranho soprou do Oriente.
Não foi o pólen das margaridas que ele levou.
Tão pouco, disseminou o amor entre os homens.
Rapidamente ele cruzou montanhas,
mares, barreiras intransponíveis.

Ele foi rápido e atroz! Secando o trigal
de repente, nas primeiras horas de
uma manhã dormente.
Os dois pilares dóricos não foram fortes
o suficiente, e o mundo inteiro quase desabou. 

Era um vento sem tempestade,
e nenhuma folha se mexia,
somente homens tombavam.
Pessoas fugiram para suas casas,
com seus sonhos, patuás e canários.

A primavera passou ao largo,
sem cheiros ou amores.
O rei invasor foi um vento tirano,
avassalador e soprou, soprou.
Humilhando Átila, Gengis Gan
e Nabucodonosor.

Doravante, mais do que sorte precisaremos,
e o clichê dos três "F"s fez-se reticente.
Foco na organização do lar, do trabalho,
corpo e mente.
Força para atravessar tormentas
e nadar contra a corrente.
Fé, pois amanhã será diferente.

Assim, como um dia foi, uma tarde é,
uma noite será melhor, ou pior de repente,
mas nunca será indiferente.
Do trigo seco fez-se pão, e de um ninho
displicente nasceu um pequeno rebento.

Foi quando todos saíram de casa,
agora mais atentos,
olhando sempre para o horizonte.
O mundo era agora diferente,
estávamos vacinados,
vigilantes.


Isaac Furtado