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sexta-feira, 10 de julho de 2020


O herói é tudo, só não é covarde.
É preto, pardo, branco.
É forte, baixo, manco.
Discreto, não quer alarde.

O herói é tudo, só não é ladrão. 
É louro, mouro, hetero, homo.
É doutor, soldado ou capitão.

O herói merece toda gratidão,
um grande buquê na glória,
uma medalha na pandemia,
um bronze, alegoria da memória. 

O herói salva um gato,
uma guerra, uma nação.
Não morre não, vira história. 

Isaac Furtado

Arte digital inspirada na obra O HERÓI (1966/2010) de Anna Maria Maiolino. Doada em 2015 para o MASP.

quarta-feira, 20 de maio de 2020

A MESA DA CRIAÇÃO



A mesa da criação estava posta. A luz, o verbo e a proposta de tudo que existe. A inspiração veio da Sistina, obra-prima do mestre Renascentista. Afresco central que foi o primeiro passo daquela construção. Mas, sobre aquela mesa não havia garfos, nem facas. Postos quase em simetria, estavam o Criador e a criatura. Figuras que depois de dias de trabalho misturaram-se, ficaram somente ossos expostos, descarnados de qualquer dor. Articulados em extensão, na ânsia por um encontro, uma arrebatação. E no toque da falange distal fez-se Adão, arremedo de um único projeto. Homem faltante e faltoso, bom e maldoso na amálgama da confusão. Sedento por sua Eva, ansioso por um ato, uma consumação, um pecado ignorado.
De lá para cá muita história aconteceu, o fogo de Prometeu, os romances de Voltaire, o tempo inventado com ponteiros a nos lembrar. Mas, o tempo não gira, ele apenas segue. Fugidio como a areia que escorre por entre os nossos dedos, como a sombra que passa sob os nossos pés. "Tempus fugit"!
Nós somos criaturas de dupla essência, uma alma pedinte por salvação e um corpo sedento por paixão. Mas, quem vencerá? O vírus ou a vacina? O tempo ou a sorte? O Sol ou a neblina? A pergunta ou a resposta? Quem será mais forte no poema de Kipling, o rei ou a plebe? Quem será de se senhor, nessa vida que segue?
Eu apenas pinto velas e esfinges, mementos da nossa impermanência. Transcedo o triste momento, seguindo a minha vontade. Criando esboços sobre espuma de sabão. Sou súdito de uma beleza, de uma lunática ambição, a imortalidade.

Isaac Furtado 

sábado, 16 de maio de 2020

Patuás e Canários


Um vento estranho soprou do Oriente.
Não foi o pólen das margaridas que ele levou.
Tão pouco, disseminou o amor entre os homens.
Rapidamente ele cruzou montanhas,
mares, barreiras intransponíveis.

Ele foi rápido e atroz! Secando o trigal
de repente, nas primeiras horas de
uma manhã dormente.
Os dois pilares dóricos não foram fortes
o suficiente, e o mundo inteiro quase desabou. 

Era um vento sem tempestade,
e nenhuma folha se mexia,
somente homens tombavam.
Pessoas fugiram para suas casas,
com seus sonhos, patuás e canários.

A primavera passou ao largo,
sem cheiros ou amores.
O rei invasor foi um vento tirano,
avassalador e soprou, soprou.
Humilhando Átila, Gengis Gan
e Nabucodonosor.

Doravante, mais do que sorte precisaremos,
e o clichê dos três "F"s fez-se reticente.
Foco na organização do lar, do trabalho,
corpo e mente.
Força para atravessar tormentas
e nadar contra a corrente.
Fé, pois amanhã será diferente.

Assim, como um dia foi, uma tarde é,
uma noite será melhor, ou pior de repente,
mas nunca será indiferente.
Do trigo seco fez-se pão, e de um ninho
displicente nasceu um pequeno rebento.

Foi quando todos saíram de casa,
agora mais atentos,
olhando sempre para o horizonte.
O mundo era agora diferente,
estávamos vacinados,
vigilantes.


Isaac Furtado 

segunda-feira, 11 de maio de 2020

A MÁSCARA




Quase tudo estava normal, até o momento em que ao atravessar uma rua apressadamente, minha máscara caiu. Tentei segurá-la sem sucesso. O vento alheio ao meu sofrimento brincava, como se ela fosse uma bailarina num balé com suaves movimentos em rodopios, que de longe mais parecia uma folha seca de outono. Aflito, ainda vi o momento em que ela pousou. Corri, e para o meu desespero vi aquele objeto precioso numa poça d'água na sarjeta. Fiquei ali alguns segundos, vendo aquele objeto afundar, até ficar apenas com a ponta do elástico para fora. Ali, inerte e olhando aquela cena, como quem vê uma pessoa se afogando, sem nada poder fazer. Assim, terminava o primeiro ato daquela tragédia. 
 Tentando escapar da rua, andava por entre ruelas cada vez mais estreitas, que mais pareciam um labirinto. O fluxo de pessoas ia aumentando, todas sem máscaras, felizes e alheias à pandemia. Algumas até tentavam conversar comigo, crianças, moças bonitas, e velhos pedindo informações. Eu me esgueirava para os lados, apenas colocando a mão para frente, sem abrir a boca, num gesto de pare: Afastem-se!. O segundo ato acabava com o protagonista, este que vos fala, a procura de uma simples pia para lavar as mãos.
 Depois de entrar em várias lojas procurando a bendita pia, todas cheias de clientes atraídos por promoções e muitos esbarrões, encontrei-a. Abri a torneira e saiu uma água minguada, amarelada de ferrugem, e para completar: Cadê o sabonete? Naquela altura, eu já me considerava contaminado. Foi quando, a mais ou menos um metro e meio, uma senhora deu um forte espirro. Daqueles que não dá tempo de segurar, colocar a mão. Eu senti as gotículas me atingindo, e aquele maldito cheiro característico. Pronto, era o meu fim, não sabia mais o que fazer. Diminui o passo, andando sem direção com os braços agora colados ao corpo, afora dois momentos em que tossi e cocei os olhos.
 Apático, perdido naquele labirinto e sem um fio para me guiar de volta, baixei a cabeça. Não havia ninguém, nem Teseu, nem um Minotauro. O meu inimigo era invisível, cruel e monstruoso nas suas atitudes. Parado no centro do palco, já febril, inspirei profundamente pela última vez, resignado com a minha impermanência. Terminava assim o terceiro e último ato.
 Suado, inclinei-me para frente em saudação, e dando dois passos para trás finalizei aquele pesadelo, digo aquela peça. O público estatístico no teatro lotado, titubeou em aplaudir. Todos estavam compadecidos com o triste final do bardo citadino. As cortinas fecharam. Apagaram-se as luzes, e no escuro da ribalta escutei os aplausos fervorosos, com os "bravos" reticentes. Depois de um minuto, ouvi passos apressados e uma correria para fora do teatro. Todos saíram desesperados para comprar uma máscara. Mas, era tarde, e a tragédia da vida real já estava acontecendo.


Fortaleza, 11 de maio de 2020.


Isaac Furtado