segunda-feira, 9 de setembro de 2019

TRANSIT GLORIA





Fitei o espelho, buscando algo do outro lado.

Procurei além da pele, carnes e matéria.

A essência que anima, a alma além do animal.

Esperei algum sinal, algo além das rugas

e dos brancos cabelos arrogantes.


O silêncio de um papel sobre a mesa.

O lençol da cama a espera dos amantes.

O canto à palo seco das madrugadas.


Fitei o espelho, implorando por respostas.

Procurei atalhos no ontem e no amanhã.

A eterna e divina matriz de tudo que se move.

Esperei a folha secar, o vento abrandar.

Nada! Somente ideias vãs e fogos-fátuos.


Esperei o mapa do meu estado se transformar.

Seus quatro cantos percorri. Vi extremos

da praia ao sertão, da fartura à desolação.


A tinta da caneta eu sei que irá secar,

a bulha no meu peito, a dor em peso,

o traçado de um eletrocardiograma,

o ritmo de toda essa bossa,

já não tão nova, irão parar.


Se passageiros nesse mundo somos,

quero a glória transitória abraçar,

e beijar o espelho d’alma.


Pois, imortal é a beleza do bem fazer,

é o último romance assinado,

o quadro pendurado na parede,

o filho mais novo já formado.

Imortal é o amor de um bem querer.

Isaac Furtado
(Poesia do livro CADERNO 53, lançado recentemente na XIII Bienal Internacional do Livro do Ceará.)


sábado, 27 de abril de 2019

Vírus



Meio vivo, meio morto ele segue.
Qual a sua essência? O seu papel?
Será que foi destinado por deuses
a nos acompanhar pela eternidade?

Mas, ele voa, congela e consegue.
Já sinto nos olhos uma dormência,
na boca o amargo gosto do fel,
e a febre me arde sem piedade.

Muito busca por seu hospedeiro.
Não por amor, ou por dinheiro.
Apenas para se dividir, pois
nem de sexo ele precisa.

Mal sabe se é um herói, um bêbado,
um condenado, ele investe certeiro.
Sem emoção, nem bem, nem mal,
apenas busca por um herdeiro.

Mito de três letras, somos primos
moleculares. Será que evoluímos?
Ele apenas se esquiva e transmuta.
Nos resta fortaleza e resistência.

Muitos tombaram aos seus pés.
Diminuto ser, se podemos dizer,
que habita em tudo, em todos.
Uma peste, da morte um viés.

Mais um espirro, um latejo na fronte.
Suplico por uma vacina para dor,
um chá quente. A semana já passou,
e ainda não vejo um horizonte.

Isaac Furtado

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

O dia dos mil mortos.






    Dia 10 de dezembro de 1878, há 140 anos a cidade de Fortaleza começava a tomar forma de grande metrópole. O porto era a entrada e a saída de muitas riquezas, mas também atracavam males terríveis, como a Varíola. E esse dia especificamente, foi o ápice da mortandade, na cidade que padecia com a peste. Foram contabilizados 1004 mortos daquele dia, e apesar de mais de 60 coveiros terem sidos contratados dentre os retirantes, e da cachaça que era a força motriz para realizar tal tarefa, mais de 200 corpos não foram enterrados. No outro dia, nuvens negras de urubus cobriam a região da Lagoa Funda. Esse dia, depois, ficaria conhecido como O DIA DOS MIL MORTOS, morreram dos milhares de infelizes retirantes da pior seca já registrada, até a mulher do governador. (NETO, Lira. O poder e a peste: a vida de Rodolfo Teófilo. 2ª edição. Fortaleza: Edições Fundação Demócrito Rocha, 2001).

    Fiquei sensibilizado após ler uma matéria, peguei uma caneta Bic de quatro cores, daquelas que você aperta na lateral para escolher a cor, aquele papel mais grosso que forra o receituário e finalizei o brilho com um corretivo branco, produzindo assim esse pequeno desenho. Minha homenagem singela aos milhares que faleceram e foram sepultados em covas coletivas, memória triste daqueles anos sofridos de seca e doenças. Há 40 anos a Varíola foi erradicada, mas a seca ainda assola o nosso Nordeste.

Isaac Furtado

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Monalisa POP

Monalisa POP (acervo de Veridiana Brasileiro).

Gostar de arte é um dom, fazer arte é um dom maior ainda. Colecionar arte é um privilégio para aqueles que podem, maior ainda quando essa arte é compartilhada com o público. Há quem colecione artistas famosos, estilos específicos, ou apenas arte contemporânea. Mas, colecionar versões de um único quadro é uma ideia genial. E quando esse quadro é a Monalisa?

Conheça os Novos Olhares para Monalisa.
@novos_olhares_para_monalisa


Isaac Furtado

domingo, 28 de outubro de 2018

Mangue seco


Engana-se quem pensa que no mangue morto não há vida. Ela se esconde nas raízes, nas pequenas poças da maré seca, no galho mais alto e fino. Ela tem patas, escamas e asas.

Engana-se quem pensa que o momento é eterno. Apenas, a lembrança do sorriso inocente da criança que nada esconde. Apenas, dois minutos de prosa, ou seria poesia? Seria ela real, ou do mangue uma fantasia?

Engana-se quem pensa que o fim está no horizonte. Que os azuis não se misturam, que a espuma e a nuvem não se tocam. As raízes da imaginação descem e sobem na busca da criação, se abraçam à paisagem. E a beleza transcende, tornando-se imortal.


Isaac Furtado

Poesia publicada na 35a. Antologia da SOBRAMES-CE Lapso de Tempo. 2018.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Cinzas da História




Com muito fogo, mas sem Luz...ia.
Ia a história e a memória, que ironia!
Ela não era uma Fênix. E das cinzas,
somente cinzas ficaram.

Com muita madeira, cupins já se fartaram.
E agora, ossadas de baleias,
de múmias duas vezes foram sepultadas.

Com muita pedra, foi construída.
Foi lar do imperador, de muito resplendor.
Foi a Quinta da Boa Vista, foi apatia.

Com muita água, o fogo findou.
E agora, para onde irá Luzia?
Impressa em 3D de migalhas?
Hipocrisia dizer que algo restou.

Isaac Furtado

02 de setembro de 2018.

domingo, 17 de junho de 2018

Retrato brasileiro



Hoje é dia de jogo da seleção, o Brasil tem apenas um rosto, um retrato com quatro cores sem manipulação. Não importa o significado dessas cores, se é ouro o amarelo, se o verde é de floresta ou esperança. Mas, são as nossas cores, nosso lábaro estrelado, nossa história de trancos e barrancos, nossa alma brasileira.

  Hoje, começa mais uma luta. Não aquela travada diariamente nas ruas, em busca de emprego, saúde, educação, segurança. Mas, uma luta para vencer uma partida. Um jogo que traz uma fagulha de esperança, traz orgulho, e aquele sentimento de pátria, de nação. Jogo que personifica a cara de todos brasileiros, essa nação tão plural e gigante. Vamos em frente, não para os lados. Vamos dar méritos aos melhores, aos esforçados, e punir os culpados. Pois, é assim que os pais educam seus filhos, é assim que se constrói um povo.
Hoje, vou ficar quieto, queria apenas dar um grito, num coro de mais de duzentos milhões de vozes. Aquele grito que explode em emoção. Não sou muito de futebol, mas sei da importância de uma simples bola para levantar uma nação inteira. Um povo tão sofrido, assassinado e assaltado merece só um pouquinho de laser. Que seja pão e circo, mas seja bom. Se temos uma marca, vamos mostrar ao mundo. Pois, somos o país do futebol. Brasil mostra a tua cara!

Isaac Furtado