sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Calajadas


Seca o cuspe na calçada.
Nasce o dia já bem quente.
Vai-se embora a alvorada.
Vão-se as horas, os dias, as memórias.
Viram os séculos, os regimes ambidestros.
Mas, a seca ainda assola. É o mais vil dos maestros.

Cala a boca de cansaço.
Calo duro da velha enxada.
Calejados os joelhos de tantas preces,
as mãos ásperas e o coração partido que padece.

De chita é o vestido. De cobre o candeeiro.
De jiló ou algo parecido, canta o sanfoneiro.
Rachada é a terra, o leito daquele que já foi rio.
O cágado jaz emborcado no fundo do açude seco.
O gado já pegou o beco. Partiu numa nuvem carregada.
Alguém me explica porque tanto sofrer não dá em nada.

Isaac Furtado

sábado, 21 de janeiro de 2017

Labirinto verde I


Naquele dia, Kaasi acordou mais cedo ao som de um Bem-te-vi distante e de preocupações alheias. O estômago lhe doía e o futuro lhe apertava a garganta como uma faca de ponta fina próxima à Jugular. Mas, ele apenas desejava uma coisa, fazer a sua caminhada na trilha do parque ecológico. O dia seguiu e outros afazeres lhe distanciaram daquela ideia fixa. Mas, na hora certa como sempre fazia, ele se preparou para o seu ato, quase como um padre preparando-se para a sua liturgia. Colocou as roupas apropriadas, nada demais, calção, camisa e tênis. E às quatro e meia da tarde ele partiu.
As chuvas recentes tinham acordado todos os insetos possíveis, ressuscitados de muitas poças de lama, ou qualquer objeto capaz de abrigar água, seja ele natural, como uma folha, ou trazido pelo homem. Os mosquitos estavam sedentos, indiferentes se iriam transmitir Dengue, Zika, ou coisa que o valha. De tal forma que, para não ser picado tinha que ser rápido no caminhar e nos movimentos dos braços. No entanto, ninguém escapava de umas boas picadas no pescoço e nas canelas.
Em questão de minutos o seu tênis perdeu toda a cor vibrante e os tons laranjas, assim como qualquer outra paleta, ficaram amarronzados pela lama acumulada na trilha. Evitando as poças maiores, ele seguiu pela trilha principal. Já passando da primeira ponte encoberta pelos altos paredões de Mangue-branco e alguns Araticuns-do-brejo, adentrou no túnel formado pelas árvores mais antigas. A sombra tornava o caminhar mais aconchegante naquela parte da trilha, escondendo alguns habitantes costumazes, como a Sericóia. Ave penalta, muito simpática e assustada, vista sempre por ali caçando os seus caramujos, algumas vezes, inclusive, seguida por seus filhotes piando atrás. O cheiro do mangue era único, forte e visceral. Nauseante para narinas despreparadas do frescor da mata.
Já cruzando a segunda ponte, ele desviou-se de algumas pessoas que faziam fotografias para uma gestante, álbum de um gosto duvidoso. Chamou a sua atenção,  a enorme barriga da futura mamãe, a parafernália de roupas e os refletores de luz redondos e prateados. Logo adiante, ele cruzou com dois rapazes, talvez namorados, sentados num banco ao lado da Marizeira seca. Ali, eles se escondiam da cidade que os devorava e discriminava. Ele apertou mais o passo, observando a vegetação de médio porte ao lado das lagoas que davam sinal de vida após as últimas chuvas. Libélulas se reuniam mais a frente, algumas passavam bem perto dele, zunindo como que avisando algo. Os místicos associam as Libélulas às fadas da floresta, os céticos as vêem apenas como parte da cadeia alimentar, mas ele as admirava pela anatomia, na forma de um pequeno dragão voador com asas transparentes. Asas inspiradoras do estilo Art nouveau.
O tempo e a sorte formaram aquele lugar. Renascido não do fogo como a Fênix, mas do sal. Pois ali, há algumas décadas atrás, nada havia, a não ser as Salinas Diogo. E das dunas de sal sobraram apenas o seu formato retangular, de onde brotaram lagoas, e na parte mais alta onde a maré não chegava, duas quadras de futebol foram aos poucos tomando forma e função. Ele cruzou por alguns tijolos, ditos como as ruínas da antiga salina. Observou um grande parafuso encravado nos tijolos, sobrevivente da maresia que o corroía lentamente. Qual seria a função daquele parafuso? Quem o colocara ali? Pensamentos existenciais lhe inundaram a mente e ele dobrou a direita, pegando a trilha em direção ao rio.
Os Soíns faziam-se ouvir com os seus silvos característicos. Eles eram os mamíferos reinantes da trilha, ali eles sobreviviam, faziam suas algazarras e se reproduziam, quase como seres mutantes, resilientes à poluição e ao descaso. Já próximo do rio, a respiração da cidade era quase esquecida, o vento fazia ranger os galhos mais altos do mangue, tornando a natureza plena. Sob os seus pés, Aratus se escondiam apressados em suas tocas, deixando apenas pequenos pontos vermelhos de suas patas amostra. No âmago da mata a Sabiá melosa fazia a sua sinfonia. Lentamente, pausadamente, ela cantava, quase como uma sereia a encantar pescadores, os prendendo eternamente em alto mar. Mas ele seguiu em frente, esbarrando no rio Cocó. Placas educativas davam muitas informações, distância da foz do rio, hectares etc. Coisas desnecessárias, pois ali, bastava apenas admirar em volta, respirar fundo e perceber que tudo aquilo era muito importante para o planeta. Parado por alguns segundos, um mosquito lhe picou no braço, mas ele ficou vendo os Pemas aflorando esporadicamente do rio, os Martins pescadores surgindo do nada e as Garças brancas começando sua jornada para a longa noite. Vendo a correnteza passando lentamente, levando galhos secos, Aguapés e restos da cidade, ele lembrou de Heráclito, do rio que nunca mais seria o mesmo e dele próprio que também já mudara... CONTINUA

Isaac Furtado

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

O olho azul e as rosas brancas


A rosa branca do Natal passado já pende,
olha para o chão como que sabendo do seu destino, a terra.
Os olhos azuis do Tim ávidos por carinho e capim,
um dia também para o chão se voltarão.
A Terra acolhe, recolhe, e revolve a vida da semente.
Até a energia pura ela absorve, aterra sem nada pedir em troca.
Sobre a Terra, tudo tem o mesmo destino.
Como o animal atropelado, hoje apenas uma mancha no asfalto.
Como o leite no seio materno que o menino secou.
Ou a chuva que trouxe o cheiro do mato, mas logo passou.
Tudo acaba, acabará.
Marque as suas palavras em pedra, meu amigo,
ou nas nuvens da internet.
Marque a sua passagem, eu te digo,
para que lembrem bem de ti. E de bem!
Marque, sem mesmo nada escrever.
Pois, se o amor fizeres,
nada, nem a terra há de comer.

Isaac Furtado

domingo, 4 de dezembro de 2016

Poeta imortal

POETA IMORTAL




O poema era sujo, mas belo e vivo,
ontem e hoje altivo. Um poema nunca morre,
apenas nasce. Pois os seus versos são filhos eternos.
Morrem os secos de espírito, os que nascem velhos.

O poema era sujo porque falava de sexo, de cheiros,
e de nomes esquecidos. Mas, um poema sempre vive
na noite marginal, ou na lembrança da terra natal.
Morrem os becos devorados pela cidade.

O poema era sujo, mas pura verdade.
Verdade, assim como amanhã haverá uma emoção,
uma ressaca, um novo amor, e uma desilusão.
Morrem os loucos, os ideais... a loucura jamais.

Isaac Furtado

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Wolves




We  are among wolves. 
There is no good or evil. 
Only the cold around 
and the huge hunger 
that terrifies the ground. 

Be quick, smart at less
and work in groups,
that soon winter will pass. 
Soon the small wolves 
will descend the mountain again. 

That is the nature, no fear or pain.

Isaac Furtado.

Foto: Montagem de foto de Hiroshi Sugimoto, "Alaskan Wolves", 1994, com os olhos de Mônica Belucci ao fundo.

domingo, 31 de julho de 2016

IBIAPABA



O velho cacto persistia indiferente a tudo,
sem muito visco, sem muita glória.
Ali, mudo com a sua coroa de espinhos,
sentindo-se abençoado pela igrejinha.
Outra demão de tinta foi dada,
e a praça toda caiada fazia
lembrar a inocência doutrora.
As cadeiras de balanço nas calçadas,
comadres a falar da vida alheia.
O jogo de dominó no bar da esquina.
E a buzina da bicicleta desenfreada
esbarrava no tempo, trim-trim...
A antiga estação de trem
da pequena Ibiapaba
fica logo ali em baixo.
Esperando por finas encomendas,
despachando finados desenganos.
O rio PotI suspira,
mas, ninguém o ouve,
e as suas intermitências
ficam cada vez maiores.
Esperando antigos favores,
uma represa d'água que não chega,
uma breve solução almeja.


Já passava do pino do meio dia,
o movimento da praça desapareceu.
Apenas um cachorro procurava por uma sombra.
O vento quente do sertão deu uma rajada,
e as frondosas Acácias se agitaram,
avisando que ainda havia vida por ali.


O velho cacto observava imóvel,
ali sentado no seu trono
de lata enferrujada.
A espera da próxima chuva,
da promessa pífia da política.
Aguardando aquele céu bonito,
que aparece quando o inverno dá a sua graça.
Aguardando que a sua prece seja rogada.
Pois, esperar por quase nada,
é a sua triste sina.

Isaac Furtado

domingo, 24 de julho de 2016

Máscaras da Humanidade

Os filósofos há muito tempo já nos falam do paradoxo do contrário, onde a juventude e a velhice coexistem no mesmo ser, mesmo corpo e mesma alma. Existe sim beleza na velhice, no “saber envelhecer”, pois existem aqueles de setenta anos que têm a mente de jovens, e no contrário, aqueles que já nascem velhos. Não como no filme “O estranho caso de Benjamin Button” em que o protagonista vai ficando mais novo com o passar do tempo, até morrer como um bebê no colo da sua amada, mas, pessoas que negam veementemente as marcas do tempo. Ao contrário de muitos filósofos, eu acredito que as marcas externas impressas na nossa face não são o verdadeiro problema, mas sim, as rugas escondidas na mente que tornam velhos aqueles que colocam suas máscaras sem cuidar do seu interior.


Os anseios narcísicos são maléficos quando, isoladamente, são buscados de uma maneira impensada e como forma de preenchimento de algum vazio, ou trauma interior. E desta maneira torna-se danoso àquele que em nome da autoestima trata apenas das máscaras superficiais.
Confrontando a cirurgia plástica e a psicanálise, eu diria que a primeira trata da máscara externa, e a segunda, das máscaras escondidas nas entranhas do inconsciente. As duas são de difícil tratamento, a cirurgia exige uma habilidade por parte do cirurgião plástico, não apenas de saber operar, mas de compreender os anseios particulares de cada paciente. E a psicanálise, pela paciência por parte do psicanalista em saber conduzir por anos uma catarse que não necessita de bisturi, onde o mal será extirpado pela palavra do analisado. E desta forma, estas máscaras podem sim, ser tratadas e cambiadas em nome da beleza, ou da juventude.
Não é pecado querer ser jovem, ou pensar-se como tal. Estamos vivendo em uma era de muitas benesses, onde a medicina oferece todo amparo para o corpo (da pele à calvície, do hormônio bioidêntico ao alimento integral, da cirurgia endoscópica ao quimioterápico). A literatura oferece toda informação possível para construção do nosso saber (da internet à livraria, da literatura de autoajuda às biografias completas, do artigo científico às redes sociais).
Hoje, a informação está literalmente no ar, só não se informa quem não quer. Só envelhece mal quem quer, pois todos sabem dos males do cigarro, do colesterol etc. Tem pessoas que ainda comem batata frita com refrigerante, que vivem de maneira sedentária e frequentam fumódromos. Em tudo há dualidade, o fazer ou não fazer o certo ou o errado. A natureza humana é dual, o corpo e a mente, o conflito e o equilíbrio. Devemos caminhar juntos em prol do “saber envelhecer”, e a fonte da juventude está no equilíbrio, no caminho do meio. Em comer bem, não comer muito, em dormir bem, acordar, ser feliz, amar, fazer cirurgias plásticas, terapias, brincar com as máscaras do tempo como no teatro, sabendo que sempre existirão as duas – a da comédia e da tragédia.

Isaac Furtado